Wednesday, August 09, 2006

Música e Literatura - Post I

Depois do chá, todos os velhos se recolheram, e até Susana foi descansar a gravidez. Ficaram na sala apenas ele, a poetisa e Raul, a ouvir Bach. E foi tal a distância a que se viu dos dois, refugiados e unidos numa fuga, sentiu-se tão incapaz para um voo assim, alto e diáfano, que quase renunciou. Valera-lhe o próprio orgulho ferido. Sem admitir a derrota, obrigara-o a permanecer ali atento a melodia que lhe arranhava a alma como um cilício. Por mais que fizesse, não conseguia sintonizar-se com o espírito criador que arrebatava os outros. A música, em vez de o libertar, humilhava-o.
- É extraordinário, não e? - perguntou Raul a voltar o disco, sem admitir sequer a negativa.
- Sim, de facto. Se bem que eu seja por mundos mais positivos, mais lógicos...
- Não há nada mais lógico do que uma grande obra musi­cal. Um largo de Haendel, por exemplo, é, como um templo grego, de rigor e simetria...
- Claro. Claro.
Novamente a grafonola começou a rodar e novamente o maldito Bach encheu a sala da lógica que ele não entendia. Era uma tocata, executada a órgão, pungente e alada.
- Eu, este Bach, francamente! É bom, sem dúvida. Mas confesso...
Os íngremes degraus de uma escada erguida da humildade humana a um céu cristão de bem-aventurança, causavam-lhe tonturas. A transcendência nele, não subia, descia. Reduzia-se a um pragmatismo de utilidade pessoal, a sua, apenas mascarado muito ligeiramente, conforme as circunstâncias. Uma força que o arrastasse sem apelo e o conduzisse, cego, através de mundos onde nada tinha a fazer senão entregar-se, ditoso por já não ser mortal, ou sê-lo purificadamente, acicatava-lhe apenas o instinto de defesa. E fechava-se como um ouriço, hostil a cada nota sedutora. «Conversas de Deus consigo próprio antes da Criação», chamara Goethe aquela música, isenta de sentimentos mesquinhos ou violentos. E nem mesmo por instantes ele podia renunciar às misérias da sua íntima natureza.
- Nao gosta?!
- Gosto. Isto e...
Ia a atacar o génio só com o desplante dos audaciosos, sem poder mais, quando felizmente as mãos de Catarina, piedosas ou enfadadas, fecharam o aparelho.
- Por hoje...
de Vindima, Miguel Torga
Abaixo fica a Passacaglia e fuga de J.S. Bach como uma sugestão possível e muito pessoal, para a obra que Raul e Catarina ouviam.